sexta-feira, 11 de março de 2011

Um acidente chamado vida que nos torna acidentados o tempo todo.


   Havia, sim, sido uma inesperada visita. Daquelas que vem de passagem num feriado qualquer e acabam ficando, tentando vida noutro lugar, aí então permiti que ficasse o quanto fosse necessário e assim 3 anos se passaram. Só eu trabalhava e aos poucos me senti independente e alimentador daquele algo que me apossou. Lentamente consegui consciência suficiente pra entender que a visita me fez companhia inspiradora, mas que arranhara minha alma em estadia, ao meu lado. Ela se foi um dia, expulsa sem ódio e só um pouco de rancor - não dela, mas da permissão minha em deixar que estivesse me fazendo mal.
   Essa história é banal. Tão banal quanto estar agora me recordando de sua benevolência maltratante; de seu poder catastrófico que jurei ter sido oferecida como referência à tragédia do crescimento, e foi, pois tive coragem de olhar em ângulo reto e traçar pela primeira vez algum plano de fuga daquelas dores. Venci. Revivi mais uns instantes. Mesclei vivências que deram certo e outras não, mas que serviram como limites. Mesmo assim dispus a entender que dores são complementos alimentares capazes de calcificar a "alma" e preparar para a guerra dessa vida em vã Modernidade. Foi conselheira incisiva e unilateral já que não pude ensiná-la absolutamente nada, nada mesmo. Pude me sentir bem com a partida e fiquei com lembranças e esse plano em plena execução nas mãos no qual não fui capaz de executá-lo totalmente (talvez por questão de tempo mesmo) segundo suas orientações. Talvez também seja por isso que ela vem me visitar novamente, pedir estadia e reparar as partes do plano que seriam impossíveis realizar; minha febre interior acidental.
  Ela chega devagar, sedutora e abrasiva. Deveria estar acostumado com o teor de suas conversas objetivas, daquelas que deixam qualquer ditador com muito receio de tomar iniciativa. Tenho que relembrar como fiz pra sentir tão bem anteriormente.
  Seja isso porque ela mesmo me ensinou a temê-la pela força e a não aceitar o que me faz mal. Ela é o bom e o mau de uma só vez; confusa e esclarecedora: confusa quando penso estar em paz e esclarecedora quando me deixa confuso. E é nesse segundo momento que me encontro muitas vezes: procurando encontrá-la para fixar os olhos em suas ações. Está em ambos os lados e o tempo que levo para mudar de direção ela deixa de sorrir satisfeita com meu desempenho e faz pose séria e desconfiada; é enganosa, e quando pergunto os porquês necessários pede para que olhe do outro lado: é como observar a olho nu o topo de uma montanha que está na distância dos ombros. Quanta distância percorro!
  Essa minha história é banal. Tão banal quanto uma conversa grupal de desconhecidos a base de drogas. Essa é a vida.
  E na verdade nunca soube se realmente ela foi embora ou se a ignorei tentando ser malvado com minha razão externa sempre acidental a fim de saber se fiz alguma diferença nessa coexistência. Um dia posso saber; quem sabe pelos atos do Tempo, tecelão do Espaço, que me trouxe até aqui tais meras imaginações que relato em termos. Vivi tentando praticar muitas coisas fora do eixo humano: é ela quem me diz os acontecimentos futuros mesmo que estejam acontecendo daqui há 1 segundo: um quase agora.
   Talvez tenha saído do armário e invadido o coração, a mente, pela necessidade de fazer-me perceber que é parte de mim como preter-humanidade minha perdida em alguma curva do lugar-algum em observação e cuidados não tão distanciados quanto imaginei que fossem necessários. Seu nome é forte entre os humanos e foi preciso um "ão" para explicar tamanha potência. Uma necessidade tão necessária que a dita vã nos proibiu, assim como todo tipo de extensão que podemos ter pra ser.
  O problema não reside em nós; ele está em todos de uma só vez e por isso é tão complicado co-alguma coisa. Solitude não resolve nada depois de ter o vício do aglomerado e nossas fugas. Ela chega como quem não quer nada, conta uma linda história, ajuda nos deveres do coração, depois esfrega na fuça a pequenez da criação.
  Não somos assim tão sólidos, apenas coagulados e mentais. Sabemos agora as palavras e estas foram doadas para nos confundir. Pensar sobre palavras é o mesmo que calcular com alguém dizendo números aleatórios aos ouvidos. Nunca fomos tão grandes pois temos mania de grandeza e se soubéssemos os limites vitais isso não ocorresse com tanta frequência de uma vez só, procurando explicação pra tudo, até os menores atos. Por isso é banal; é repetitivo e tudo o que é cansa.
  Ela, montanhesca, pede pra que enxergue o mais próximo que puder e perco o foco, mas posso tocá-la: é rígida, fria e tem gosto metálico como uma arma e se torna quente como nossas cabeças, depois perde seu estado deixando de ser morna e gela o coração. Não seria capaz de conservá-la pois não tenho uma geladeira no peito, comente uma máquina que cospe chumbo silenciosamente e fere profundo.
  Realmente. Não posso represar esse rio que corre às margens de tantas casas de quem gosto tanto. Não posso arquivar águas passadas pois o limo se forma quando represo e me importo mesmo se estiver lá no cume observando o acidente.

crédito da foto: Sonda "Mars Reconnaissance Orbiter" - Nasa

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